um texto impressionante

Posted: 24 de Julho de 2005 in Sem categoria
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Vi agora um texto que me impressionou e que com a devida vénia, vou sacar, d´O Velho da Montanha, para aqui com os comentários que suscitou. É um texto magnifico que nos deixa perplexos e convida à reflexão sobre a fome no mundo.
 
A ANATOMIA DE UM CRIME CONTRA A HUMANIDADE.

Kevin_Carter_Starving_Child_Pulitzer.jpgCom esta impressionante fotografia, Kevin Carter, fotógrafo Sul-Africano, ganhou o prestigiado e almejado prémio Pulitzer em 1994.

Passados alguns meses Carter suicidou-se!

Será sempre abusivo especular acerca das razões que levaram Kevin Carter ao suicídio, mas na opinião do seu pai, o fotografo, na sua essência um esteta e um artista, teria tido a maior dificuldade em conviver com o facto de o seu sucesso e honrarias terem como base uma tragédia de tal dimensão e crueldade, o que provavelmente lhe terá atormentado os sonhos até ao desepero final.

Não terá sido certamente no momento em que disparou a sua máquina fotográfica que ele terá interiorizado a dimensão do drama. Profissional competente, o dedo não lhe tremeu ao premir o disparador que fixaria indelevelmente na película uma das mais tristes memórias do mundo contemporâneo.

Durante o processo de revelação, na solidão da câmara escura apenas iluminada por uma luz irreal, no papel fotográfico começou a desenhar-se a cena: Primeiro apenas umas sombras, depois uns contornos e finalmente todo o processo de nitidificação da imagem tornou a cena, inicialmente difusa, na verdadeira anatomia do horrível espectro da fome, em que a única comida que está à vista é a comida do abutre que espera com a sua proverbial paciência a hora de iniciar o festim.

Toda esta previsível sequência não deixa de ser uma hipérbole evocativa de que a cena que foi fotografada não era uma situação inevitável, não era um Acto de Deus, mas tão só o finalizar de um processo lento, continuado e cruel, com origem e sequência na maldade intrínseca da natureza humana.

Nestes últimos dias, no seguimento das minhas considerações acerca do “Live 8”, para além do que tenho lido dentro e fora do âmbito da blogosfera, tenho discutido com várias pessoas, normalmente à mesa de relativamente lautas refeições, o problema da miséria em África e das hipotéticas formas de a poder minimizar e combater.

Infelizmente, de um modo geral as opiniões e conversas terminam tipicamente em dois tipos de beco sem saída: Ou a questão é politizada e imediatamente atacada como sendo uma preocupação sectária da esquerda, portanto não passível de ser discutida sériamente, ou a constatação da corrupção generalizada em África e a existência de regimes execráveis como os de Mugabe ou Eduardo dos Santos, define imediatamente a impossibilidade de atacar o problema, dado que nestas circunstancias os oligarcas seriam sempre os principais beneficiários de qualquer acção de índole humanitária.

Não deixam de ter alguma razão, mas a simples desistência com base nestes pressupostos é condenar ao sofrimento e à morte muitas crianças que nenhuma culpa têm da estrutura das paixões ideológicas do Ocidente ou dos Governantes sobre cuja égide nasceram.

Havendo vontade política, e essa só existirá sob forte pressão da sociedade civil, será sempre possível forçar a criação de mecanismos de intervenção supra-governamentais que façam chegar a ajuda a quem precisa. Programas de formação de quadros locais para implementar esses mecanismos poderiam criar as fundações para uma África mais justa e mais democrática.

Não querendo ser tão ambicioso, bastaria dotar de apoios oficiais, substanciais e concretos, as várias organizações missionárias que há tantos anos militam no terreno com as maiores dificuldades, pondo de parte os habituais pruridos sobre a laicidade do estado.

Caramba, trata-se de salvar vidas!

Há uns anos atrás, durante a guerra civil Libanesa, a Madre Teresa de Calcutá fez uma visita a Beirute e chocada com o que viu, afirmou ser necessário entrar na zona muçulmana do conflito para evacuar feridos e refugiados. Numa atitude típica, muito igual à que nós adoptamos em relação ao problema Africano, o “establishment” da Cruz Vermelha opôs-se, com o argumento de era impossível evacuar toda a gente. Com aquele ar irreverente e desafiador que se lhe conhecia, Madre Teresa retorquiu: “Mas qual é problema? Basta trazer um de cada vez”.

Realmente é de atitudes destas que necessitamos, atitudes práticas e positivas, atitudes que salvem vidas, nem que seja só uma de cada vez.

Enquanto alguém conseguir olhar para esta dramática e trágica fotografia sem se emocionar, sem pensar que poderia ser um filho seu, sem cogitar sequer se de alguma forma aquela vida poderia ter sido salva, então eu considero que a raça humana não merece continuar a existir e apenas lhe restará aguardar pelo apocalipse que ela própria se encarregará de levar a efeito.

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Comentários
  1. Fernando diz:

    Dou-lhe razão a 100%. Não é racionalizando que se resolve o problema.Enviado por JSNovo em julho 6, 2005 07:38 PM «De nada serve impor a poesia», diz o mago Patrice. Mas há coisas que não sendo poesia a evocam numa mancha: a solar infância à beira do mar, uma descoberta emocionada na vida, uma seara encandeada de luz – várias são as imagens simples que, poeticamente, podem compor um passado feliz. Ora se se consegue produzir passado amável, certamente que é também possível conseguir um presente aceitável. A rima projecta-se, cruza um sonho, estabelece-se pertinaz, não abandona o «infectado»… Até que por fim ele se move.Enviado por Anjinho Papudo em julho 6, 2005 10:14 PM Velho da Montanha, como é sábio, humano, sensível e crítico! Se conseguissemos ser todos assim, o mundo seria bem mais feliz.Enviado por megampere em julho 6, 2005 10:44 PM Caro Velho: Muito bom, muito bem – o Velho no seu melhor! Lamentaveis são os factos, que a todos envergonham… ADAMASTOREnviado por ADAMASTOR em julho 7, 2005 12:28 AM Oi, sou do Brasil, e recebi esse link de um amigo de Porto. Gostei do texto, e como futuro fotógrafo, espero fazer dessa arte uma forma de denúncia, uma voz altiva e pró-ativa, em busca de um novo significa para a vida de toda a humanidade. Respeito a morte do fotógrafo, pois acho que não conseguiria viver se estivesse no lugar dele… Enfim, hoje o mundo precisa mais de atitudes e reflexções sobre nossas ações, do que o imediatismo exagerado e sem a preocupação com o próximo.Enviado por Diego em julho 7, 2005 01:13 AM Viva, Vou só comentar parte deste texto magnífico que me emocionou! O homem arranja sempre desculpas para não fazer o que é justo. Ou porque o ambiente e o combate à pobreza são bastiões da esquerda ou porque a segurança e o respeito à lei são bastiões da direita. E há certos problemas que não são nem devem ser fracturantes e só são tratados dessa forma porque os partidários da esquerda e da direita chamam a si certos valores universais e formam uma batalha de ideias e valores sobre algo que é puramente… universal (desculpa o pleonasmo)! Acho que há problemas que não podemos ignorar nem nos escudarmos em teorias estúpidas. Será que, no fundo, o ser humano não é solidário? Que valores são mais importantes: devemos evitar a degradação humana à custa de parte do nosso Bem Estar ou não? Se fizermos esta pergunta aos nossos amigos ou eles a nós, vamos responder todos a resposta politicamente correcta. Mas que pensamos realmente? Que estamos dispostos a abdicar para resolver o problema? Abraço,Enviado por Ricardo em julho 7, 2005 01:15 AM Subscrevo inteiramente o último comentário. É certo que todos se emocionam – não seria humano quem não se sentisse assim… Mas até quando nos ficaremos todos… paulatinamente… apenas por aí? E depois da emoção, voltamos calmamente às nossas vidas, em comparação, muitíssimo confortáveis e desafogadas… E não passamos, como foi dito, do politicamente correcto.Enviado por Ana V. em julho 7, 2005 11:05 AM Se, ao invés de sentirmos orgulho na ostentação de determinados símbolos – que ora são vistos como sinal de sucesso -, passarmos a sentir vergonha porque revelam uma aceitação e legitimação do primado do ter… Se, usando as palavras de Céline, deixarmos de «admirar todos os dias inúmeros bandidos a quem o mundo inteiro venera (e nós também) a opulência, e cuja existência se mostra, (…), como um longo crime em cada dia renovado». Se compreendermos que a pobreza é um subproduto da riqueza… Se… Então, talvez consigamos ascender à condição de raça HUMANA!Enviado por Anastácia em julho 7, 2005 11:22 AM Emocionar,emociona a todos.Mas vamos ficando só pela emoção e emoção não enche barriga a quem precisa. Tenho pena de viver num mundo tão injusto.Enviado por kaldinhas em julho 7, 2005 06:38 PM

  2. Cris diz:

    Deixo aqui a solução de Paulo Coelho que me chegou esta semana e repasso para ti(embora com uma traducção de brasileiro para português duvidosa…), retiraria ainda as nossas tropas recém-mandadas ao Afeganistão e aplicava esse dinheiro na luta contra a fome (pode ser aplicado aqui mesmo em Portugal, pois o que não falta por aí é miséria escondida):Está debaixo da cama do Bush! Por Paulo Coelho Tendo em mente que o presidente da nação mais poderosa no mundo é responsável pelas suas acções e sabe do que está a falar aproximadamente, eu – um escritor brasileiro, com nenhum acesso aos serviços secretos, ao procedimento da inspecção da ONU ou aos ficheiros confidenciais, mas capaz de ler jornais com um grau de inteligência – venho com a resposta definitiva de como encontrar as armas da destruição maciça que estão a ser escondidas pelo Iraque. A propósito, vou requerer pagamento por esta informação: Eis como encontrar as armas, passo-a-passo: 1. Todos os inspectores de armas da ONU actualmente no Iraque devem fazer as malas, pagar as suas contas do hotel e dirigir-se ao aeroporto de Bagdade. 2. Lá devem comprar bilhetes de avião na classe business, para Washington. Eu reforço a classe do business, de modo a que tenham tempo para descansar, porque a viagem envolverá algumas escalas. 3. Ao alcançar Washington, devem apanhar o primeiro autocarro para o quartel-general da agência de inteligência central. O endereço pode ser encontrado na lista de telefones de Virgínia. 4. Ao chegar ao quartel-general da CIA e armados com o mandato apropriado da inspecção da ONU, devem exigir ver todas as fotos, informação e originais que estão a ser fornecidos ao Sr. George Bush. Estes são os originais que localizam a posição precisa de cada esconderijo de armas que permitem que o Sr. Bush nos assegure que o Iraque tem um arsenal capaz de destruir o planeta. 5. Uma vez na posse destes originais, devem retornar ao Iraque devem voar outra vez na classe business (a fim de chegarem descansados) e ir imediatamente aos lugares indicados nas fotografias. Incapaz de negar a evidência, Saddam Hussein não terá nenhuma opção mas destrói seu arsenal, com medo que o mundo inteiro se volte contra ele. 6. Se a CIA não tiver os originais, os inspectores devem ir em linha recta ao quarto do Sr. Bush, na casa branca, Washington. No caminho, devem evitar qualquer contacto com os milhares de manifestantes americanos que protestam contra a guerra do Iraque. 7. Se o Sr. George Bush não cooperar com os inspectores da ONU, devem procurar a evidência debaixo da cama dele. Se não a encontrarem lá, devem ir ver o psicanalista do presidente, equipando-se primeiramente com um mandato do conselho da segurança da ONU, e fazerem a seguinte pergunta: " um filho tem necessariamente que terminar o trabalho do seu pai?" Se a resposta for sim, recomendem-me por favor imediatamente: o meu pai era engenheiro civil e, quando se aposentou, pode muito bem ter deixado projectos para serem terminados pelos herdeiros do negócio. Se a resposta for Não, exija que o psicanalista – em nome da ONU, dos E.U.A. e do resto do mundo – prescreva o medicamento necessário ao seu paciente de modo a que não constitua por muito mais tempo uma ameaça para o seu país e para o planeta. Este é o meio requerido do pagamento: Uma vez que esta linha de acção infalível for seguida, eu peço que os biliões de dólares que seriam gastos na guerra sejam divididos da seguinte maneira: 1. 50% para ajudar aos pobres do Brasil, já que o presidente do Brasil se debate actualmente com um deficit de orçamento enorme e porque o autor deste guia prático é ele mesmo brasileiro. 2. 40% devem ir para África. 3. 9% para a Europa velha, que tremeu mas não caiu – ao menos não até agora, o dia em que estou a escrever este artigo. 4. 1% para pagar por uma biografia agradável de Tony Blair, traduzida em 40 línguas, que na capa dura, com fotografias a cores, diga que líder grande que ele é, como é inteligente, importante, carismático, considerável e charmoso. Isso deve ser bastante para mantê-lo satisfeito, no conhecimento que as suas qualidades notáveis foram reconhecidas. Finalmente, é importante adiccionar o seguinte: ao falar sobre a guerra, por favor não generalize e não diga: os "americanos todos querem atacar o Iraque". Nós fizemos o mesmo erro antes, ao dizer que "os Sérvios são todos uns carniceiros", "os brasileiros somos todos preguiçosos", ou "os Iranianos são todos fundamentalistas". Quem quer atacar o Iraque são os políticos que cercam George Bush, os orfãos de Enron. Os povos americanos estão inteiramente cientes do que se está a passar e assim como conseguiram parar a guerra no Vietname, talvez consigam convencer o psicanalista do Sr. Bush a prescrever-lhe um sedativo e pôr fim a este pesadelo. Este artigo é uma contribuição ao debate da democracia aberta na crise iraquiana publicado em http://www.opendemocracy.net

  3. Fernando diz:

    excelente!

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